quinta-feira, 11 de junho de 2026

Do veto presidencial à navalha do petisco

O Presidente da Republica usou pela primeira vez o seu direito de veto. O primeiro de muitos, prevejo. Mas, no caso presente, fez muitíssimo bem em vetar essa coisa das bandeirolas nos edifícios públicos. Isso de, nesses locais, apenas poderem ser hasteados estandartes institucionais parece-me muito mal. Compreendo perfeitamente a indignação dos criadores de periquitos rabichos ou da confraria do bitoque por, quando da realização do festival alusivo à temática, o município lá da terrinha estar impedido de hastear a respectiva bandeira. Eu também ficarei deveras chateado se no próximo ano, lá para Maio, a bandeira do Benfica não for içada pelo Moedas no edifício dos Paços do concelho.

Fiquei hoje a saber – eu e quem quis ler a noticia – que os municípios já fecharam mais dez mil alojamentos locais. Que são, segundo os especialistas especialmente especializados em questões imobiliárias, uma das principais causas da falta de habitação e do elevado preço das rendas. Apesar de ter pesquisado, não encontrei estudo ou relatório que revele as consequências desta inusitada dinâmica das autarquias. Mas, presumo, deve existir. Tal como também acredito que, por consequência, os preços das rendas e das casas à venda já estarão a baixar.E se não estiverem é porque a realidade ainda não recebeu o memorando dos comentadores televisivos, que costumam resolver crises económicas com a mesma facilidade com que falham previsões.

Entretanto, por essa Europa fora, as facas continuam muito irrequietas. O que não surpreende, dada a quantidade de gente que, em função de crenças religiosas medievais, está legitimada a usá-las. Coisa que, obviamente, não critico. Até porque, em virtude das tradições ancestrais da minha região, também posso ser portador de uma navalha. Desde tempos imemoriais qualquer alentejano que se preze traz sempre consigo a navalhinha do petisco. Ninguém me vai dizer que não posso, pois não? Tratar-se-ia de um acto discriminatório e constituiria razão de sobra para me queixar ao Neves. Ou a quem calhar, porque qualquer dia a única arma culturalmente aceitável será a tesoura da nova censura do politicamente correcto.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Trabalhar? Que ideia absurda!

Anda por aí muito boa gente – e outra não tão boa quanto isso - indignada por o governo ter intenção de condicionar a atribuição da prestação social única a quem prestar trabalho social. Compreendo que o conceito de trabalho, nomeadamente quando aplicado a quem não está habituado, provoque alguma apreensão. É natural. O que me parece preocupante é a existência de tantas criaturas preocupadas com com a preocupação daqueles que querem continuar a não se preocupar com essa coisa do trabalho.

Sinto, confesso, alguma inveja. O que é uma coisa muito feia, reconheço. Mas sinto-me injustiçado. É que ninguém se importa que eu – e tantos outros como eu – tenha de continuar a trabalhar, mesmo tendo idade para ser pai ou avô de muitas daquelas pessoas que teriam de se dedicar ao trabalho se a proposta do governo fosse aprovada. Percebo que alguém tem de trabalhar, no caso os velhos, para que outros, bastante mais novos, possam mandriar. Devia ser ao contrário, mas num país onde são os invertidos que ditam as regras não se pode esperar que reine a normalidade.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Fachos do bem



Muita razão tem o ministro Neves quando garante que a extrema-direita e o seu discurso populista constituem uma ameaça à democracia. Também acho. Olhem-me estes, os desta fotografia. Não querem saber das leis do Estado de direito e sugerem que a casa da democracia seja incendiada. É este discurso de ódio, promovido pela extrema-direita, que incentiva a violência e que pretende acabar com a democracia. Não podemos, obviamente, tolerar algo assim. Digamos, até, que exterminar esta extrema-direita se trata de um imperativo de qualquer democrata.

Muito bem, igualmente, todos os canais televisivos e comentadores em geral, que foram unânimes em condenar este desfile de fascistas que teve lugar um destes dias em Lisboa. Para não falar do vivo repúdio que esta passeata de fachos, gente que despreza a Constituição e os valores de Abril, suscitou entre os partidos de esquerda, forças progressistas e democratas diversos. Desde o BE ao PS todos condenaram. O PCP até lhes terá chamado bafientos, mas isso também já me parece demasiado ofensivo. São apenas mal-cheirosos.


quinta-feira, 4 de junho de 2026

Os verdadeiros artistas



Gastar dinheiro à tripa forra constitui um dos atributos de quase todos os políticos. Se fosse o dinheiro deles, o que lhe sai do lombo, não viria mal nenhum a mundo. O pior é que não é esse. É o nosso. Aquele que roubam todos os meses ao nosso ordenado, o que nos sacam quando compramos seja o que for ou aqueloutro que nos surripiam quando obtemos algum rendimento de poupanças sobre as quais já tínhamos pago imposto antes de cometermos a irresponsabilidade de não as gastar.

Os governantes, desde o governo à mais pequena junta de freguesia, possuem uma imaginação prodigiosa para fazer evaporar os rios de dinheiro que deságuam nos cofres públicos. As contas bancárias e as estantes dos amigos, se possuíssem o dom da palratória, explicariam isso muito melhor do que eu. Que, diga-se, destas coisas não sei nada. É só o que leio e ouço dizer.

Há quem garanta, por ignorância ou vontade de nos fazer rir, que delapidar dinheiro em cultura não se trata de uma despesa, mas sim de um investimento. Deve ser por isso que o governo resolveu investir nesta área. Só num varão de roupa, considerada arte contemporânea, investiu perto de oitenta mil euros. As fotos do “investimento” estão disponíveis na internet e, mesmo não percebendo nada de moda nem de arte, estou convencido que se arranjava igual e muito mais barato na Vinted.

Entretanto, numa passeata recente, captei a imagem que acompanha o texto. Calculo que este conjunto artístico valha uma fortuna. A esta hora, se calhar, já integra também, tal como o varão de roupa usada, a coleção de arte contemporânea do Estado. A menos que não seja criação do autor certo.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A greve do costume



Mais uma greve geral. Outra vez mesmo a jeito de um fim de semana prolongado. Nada a que não estejamos habituados. A adesão, por isso e pelo que mais calhar, deve ter sido enorme.

Pelo que se vê, aderiram os do costume. Ou seja, aqueles a quem o pacote laboral não se aplica, impedindo os demais – os restantes, a quem realmente se aplica – de ir trabalhar. Tudo muito legitimo, que isto de fazer greve é um direito. Nem que seja na defesa dos seus privilégios. Ou, igualmente carregadinho de legitimidade, na exigência de mais privilégios.

De resto tudo normal. Como de costume passa a imagem de um país parado. Segundo os dados propagandeados, a paralisação superará os noventa por cento. Ou mais. Lá para o final do mês as folhas de vencimento darão a resposta mais exacta. Ou não.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Os dramas que os deixam tragicamente horrorizados



São muitos e graves os problemas que afectam o país e os portugueses. Alguns deles – dos problemas – são, até, ambas as coisas. Muito graves. Nos últimos dias surgiram mais dois. Qualquer um de extrema gravidade e ambos capazes de infernizar a vida a muita gente.

Primeiro foi aquilo das sombrinhas na praia. Acabar com a proibição, imposta pelo concessionários, de espetar o chapéu de sol no areal entre a beira-mar e as espreguiçadeiras de uma zona concessionada, tornou-se quase num desígnio nacional. Ou, a bem-dizer, das televisões que aquilo é gente que sabe muito bem o que desinteressa aos portugueses. Deve ser por isso que, não fossem os nossos impostos, estariam todas falidas.

Outro drama recente é a intenção do governo reunir uma quantidade de prestações sociais numa só. O que já de si era péssimo, como consideram aquelas criaturas de que ninguém faz caso, mas que sabem o que é melhor para nós. Pior ainda é haver a intenção de que os beneficiários de uma ou duas delas terem de prestar trabalho social, quinze longas horas semanais, para as poderem receber. Coisa que, naturalmente, deixou à beira de um ataque de nervos todos aqueles que ficam horrorizados sempre que ouvem a palavra trabalho. Não é para menos, que isto só trabalha quem não sabe fazer outra coisa e muita dessa malta sabe-a toda.