sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Mania das grandezas



Gosto de Clios. Tanto que já vou no terceiro. Um de cada vez, claro. Dou mesmo por mim a pensar que, o mais provável, é já nem saber conduzir outro modelo ou um automóvel de outra marca. Desgosta-me por isso que os representantes do povo – os que me representam, portanto – apouquem o carro no qual me desloco e o dêem como exemplo de viatura pouco digna. Aborrece-me, causa-me até um nível de desconforto bastante significativo, que o meio de transporte do representado seja considerado demasiado reles para o seu representante. Principalmente quando é o primeiro a suportar o pretenso bom gosto - luxo - do segundo.
A aversão demonstrada relativamente ao utilitário da Renault e a preferência pelos potentes topos de gama é ainda mais estranha por vir de quem vem. Alguém que esteve no governo anterior, não se cansou de o apoiar e ainda hoje lhe consegue descortinar virtudes. Chefiado, recorde-se, por um indivíduo que se deslocava com frequência num pequeno carro eléctrico.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

As nozes da crise



Num momento de rara sagacidade e de inusitada perspicácia – pronto, foi apenas sorte – antecipei-me aos ciganos de todas as espécies e, pela primeira vez em muitos anos, fiz uma razoável colheita da produção das nogueiras da propriedade. E isto em apenas cinquenta por cento das árvores. Ou seja, duas.
No próximo fim-de-semana, se a rapaziada do costume não me poupar o trabalho, deverá ser recolhida quantidade idêntica do restante arvoredo. Nozes, portanto, são coisa de que não vai haver crise cá por casa. E dedos completamente pretos também não.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

E nas banhas, quando é que se corta?



Diz que o governo se prepara para produzir legislação que permita colocar no olho da rua metade dos trabalhadores contratados a prazo da função pública. Será, parece, uma das tão ansiadas medidas de corte na despesa. As tais gorduras onde quase todos acham que a naifa governativa deve ser particularmente incisiva.
Nem vou gastar as pontas dos dedos a discorrer acerca desta intenção. Obviamente que, de excepção em excepção, mais cedo que tarde se concluirá que apenas uma ínfima parte – ou ainda menos do que isso - das quarenta ou cinquenta mil pessoas nestas circunstância irão ver quebrado o seu vinculo contratual com o Estado. Autarquias incluídas. De resto só um tolo acreditará que em ano eleitoral alguém se vai atrever a fazer um despedimento desta envergadura.
Nesta anunciada medida o que também parece pouco sério é que não é feita qualquer referência, por mais pequena, a uma eventual redução do número de assessores e membros dos gabinetes dos órgãos políticos. Deve, quero acreditar, tratar-se de um lamentável esquecimento. Ou então fui eu que percebi mal.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Presos às dividas



Lamentava-se, aqui há atrasado, um dirigente de uma associação representativa dos profissionais das forças de segurança da situação, dramática segundo ele, que estaria a ser vivida por alguns dos seus associados e que, alegadamente, colocaria em causa o seu bom desempenho profissional. Dita assim a coisa podia, de facto, ser preocupante. Temos de concordar que, na maioria das circunstâncias, quando as forças policiais intervêm, o caso, já de si, será um drama. Se a isso acrescer uma história dramática que influencie o comportamento do agente, então, o caldo pode mesmo entornar-se.
Mas não. O assunto tão dramatizado pelo tal dirigente não merece especial relevância. Trata-se afinal da dificuldade que alguns polícias e militares da GNR estarão a sentir para pagar as prestações dos créditos que contraíram. Em certos casos, acrescentava o cavalheiro, noventa por cento do vencimento estaria já comprometido e que o restante não dava, sequer, para assegurar as despesas de alimentação.
É verdade que ser autuado por um agente esfomeado não é das coisas que mais me tranquiliza. Não me parece é que o assunto assuma o dramatismo que se lhe pretende colocar em cima. As forças de segurança são, esmagadoramente, compostas por gente competente e que sabe separar de forma conveniente o trabalho dos assuntos particulares. Não irão por isso ter agora um comportamento diferente de quando, com dinheiro emprestado, iam de férias para destinos exóticos, compravam todo o tipo de novidade tecnológica, trocavam de carro todos os anos ou compraram uma casa toda artilhada e com o dobro do tamanho do que necessitavam para albergar o agregado familiar.

domingo, 7 de outubro de 2012

E que tal um imposto para financiar a limpeza do que os vossos parentes sujam?



Parte significativa do país está louca. Doida varrida, mesmo. Andamos de mão estendida a pedir dinheiro emprestado para manter isto a funcionar, corremos o sério risco de um destes dias não haver dinheiro para pagar pensões e vencimentos à função pública, a possibilidade de tudo, mas mesmo tudo, paralisar por não existirem recursos para manter a máquina do Estado a funcionar é uma ameaça real mas, ainda assim, continuamos em festa e a exigir coisas cada vez mais parvas.
Nem vou, por agora, referir-me às inúmeras festinhas - patrocinadas pelos dinheiros públicos que não existem - que todos os dias se vão realizando de norte a sul e onde se vão esturrando os euros que não há, numa constante e criminosa delapidação do erário público. Centro-me, hoje, numa antiga reivindicação de alguns alienados que desde há muito exigem para os bichos o mesmo tratamento que os humanos em matéria fiscal. Querem estes loucos que a comida para animais tenha uma taxa de IVA reduzida, em lugar da actual taxa máxima, e que as despesas de saúde “com os elementos não humanos da família” – possivelmente algum terá um primo gato ou um cão como irmão – sejam passíveis de dedução no IRS dos donos. Dos parentes de duas patas, portanto.
O mais extraordinário é que esta gente não se coíbe de, publicamente, reivindicar este tipo de benesses como se fosse a coisa mais normal deste mundo. Numa altura em que estamos sujeitos a mais um “enorme aumento de impostos” é preciso descaramento para soltar idiotices deste quilate. Parece que ainda não perceberam – tal como os desvairados das festarolas – que não há dinheiro para maluquices. Vão-se tratar, pá. Porque para isso, embora pouco, ainda vai havendo.