quinta-feira, 19 de abril de 2012

O quintal da crise



Tal como referi noutras ocasiões, não será a produção do quintal da crise a ter influência determinante na economia cá de casa. E ainda bem. Mas, mesmo assim, sempre dá para um petisco. O espaço é reduzido, a terra não está minimamente estrumada, água apenas da chuva ou os restos da cozinha e o jeito do alegado hortelão para estas lides é quase nenhum. Portanto, face a todos estes condicionalismos, qualquer coisa que por aqui consiga vingar constitui um facto digno de assinalar.
Hoje foi dia de colheita. A primeira. Devidamente documentada pelas fotografias anexas. Favas e ervilhas. Digamos que, face ao acima exposto, não correu propriamente mal. Até porque – verdade, verdadinha – nem gosto de favas…

terça-feira, 17 de abril de 2012

Graffiti valorizável


Em diversas ocasiões manifestei a minha indignação contra aqueles que se ocupam a borrar paredes. Abro hoje uma excepção. Este bloco de cimento – que, diga-se, parece não servir para nada além de ocupar espaço - ficou muito melhor após o trabalho que um qualquer projecto de artista resolveu executar. Sim, vá lá, desta vez vou achar que é arte urbana. Aplaudo. E com as duas mãos. A sombra, aparentemente, também.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O massacre das galinhas


Três milhões. Diz que será esse o número de galinhas a abater para que as restantes possam levar uma vidinha de acordo com as normas europeias. Uma mortandade. Uma verdadeira chacina, até. Um holocausto em vertente galinácea, mesmo. Tudo, ironicamente, graças aos defensores do animais e ao zelo dos legisladores europeus e portugueses que, parece, não terem nada de mais interessante para fazer com o dinheiro dos nossos impostos.
Já aqui há atrasado discorri acerca da melhoria das condições de vida das galinhas. Coisa importante, como se sabe, e que a todos devia preocupar. Não irei, portanto, repetir-me. Mas agora, que os produtores já fazem gala – isto anda mesmo tudo ligado – das condições das gaiolas em que os ovos são produzidos, confirmam-se as piores expectativas que então manifestei. O preço vai disparar. Mas, em contrapartida, vamos passar a mandar abaixo omeletas ou ovos mexidos de muito melhor qualidade. Pelo menos produzidos por galinhas muito mais felizes. As que sobreviverem ao extermínio, claro.

domingo, 15 de abril de 2012

Paineleiros e outros populistas


Não era preciso ser bruxo nem possuidor dons adivinhatórios para saber que o resultado da brutal austeridade que está a ser imposta aos portugueses não seria muito diferente daquilo a que estamos a assistir. Houve, no entanto, parvos que não perceberam. E não me refiro aos que estão agora no governo nem aos que lá estiveram antes. Esses sabiam que as consequências seriam estas e este era o resultado que pretendiam. O que me surpreende é não assistir à penitência de todos aqueles que nos jornais, televisões, blogues ou em simples cavaqueira de café, defenderam esta politica suicida. Ou, se calhar, homicida. Porque, no fundo, o que se trata é de aniquilar a economia nacional e, por consequência, um número significativo de portugueses.
Causa-me, também, algumas náuseas a forma como é discutida a questão dos subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos pela esmagadora maioria dos paineleiros. Todos, alegadamente, especialistas em medidas que nos hão-de tirar da crise. Ainda estou por perceber a razão porque escapa a esta gente que cerca de cinquenta por cento da alegada poupança constitui receita directa do Estado e da parte restante um valor significativo voltaria aos cofres públicos através do consumo. Ou, pior, porque raio nenhum deles denuncia que relativamente aos trabalhadores da administração local esse dinheiro vai apenas servir para os municípios e freguesias gastarem como muito bem entenderem, porque o governo vai transferir exactamente o mesmo valor.
Como sempre afirmei, a poupança com este corte é em termos orçamentais – ponderados os valores da despesa que fica por pagar e a receita por cobrar – praticamente residual. Envolve, antes, muita demagogia, populismo e uma mal disfarçada vontade de colocar uns portugueses contra os outros. Ou, como diria um fulano que em tempo entendia que outros tinham que nascer duas vezes para serem mais honestos do que ele, “temos é de nos preocupar com o desemprego”. É, sem dúvida, verdade. Mas uma coisa não desculpa a outra. E misturar as duas parece-me vagamente estúpido. Pelas razões expostas e, principalmente, pela falta de argumentos para as rebater.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Consumidos pelas taxas


Ao que consta o governo terá a intenção de criar mais uma taxa. Parece que, desta vez, sobre as superfícies comerciais acima de uma determinada dimensão. A finalidade – que é como quem diz o argumento - será, alegadamente, qualquer coisa vagamente relacionada com a saúde, condições de higiene, segurança alimentar e outros aspectos mais ou menos relacionados e igualmente parvos. Ou seja, traduzindo em linguagem clara, simples e daquela que eu entendo, arranjar mais uns pozinhos para maquilhar as contas do défice à custa dos consumidores.
De fora deste processo taxativo ficarão as pequenas lojecas. Ou, por exemplo, o tipo de comércio que se pratica em barracas como as da fotografia. O que, atendendo à alegada finalidade da taxa a criar, diz tudo o que precisamos de saber acerca da honestidade politica e transparência de meios que os javardolas que pusemos no poleiro usam para governar. Nada que mereça a nossa estranheza. Afinal estamos mais do que habituados a barracadas.

terça-feira, 10 de abril de 2012

A maternidade Alfredo da Costa vai fechar. E daí?


Tenho aqui manifestado em inúmeras ocasiões a minha indignação pelo encerramento de serviços públicos no interior do país. Com este tipo de políticas prejudica-se a população, diminui a qualidade de vida aos que ainda por cá restam, promove-se o abandono do território e fomenta-se a desertificação. Parece-me óbvio, mas se calhar é só a mim, que aquilo que eventualmente se poupa no presente ao fechar serviços ainda nos irá – a todos – custar muito caro no futuro.
Pena que àqueles que vivem no litoral, em especial nos grandes centros, pouco tenha incomodado esta estratégia de encerramento de tudo o que pertence ao Estado. Pelo contrário. É mais ou menos comum este procedimento colher a simpatia praticamente generalizada daqueles que, até agora, não têm sido afectados por esta tendência de fechar tudo o que fica longe de Lisboa. O argumentário em defesa desta posição envolve quase sempre razões de escala, nomeadamente a pouca gente servida e os altos custos do serviço. Como se, por sermos poucos, fossemos cidadãos de segunda ou apenas onde existe muita gente todos os direitos devam estar garantidos.
É por estas e por outras – mais pelas primeiras do que pelas segundas – que tenho alguma dificuldade em solidarizar-me com todos os que estão hoje indignados pelo encerramento da maternidade Alfredo da Costa. A indignação terá, provavelmente, apenas razão de ser em termos sentimentais. O que, convenhamos, se comparada com a onda de encerramentos a que temos assistido país fora é coisa pouca. Até porque, caso se confirme o fim daquela unidade de saúde, aos potenciais utentes não faltarão alternativas no raio muito reduzido de quilómetros. Coisa de que nem todos os portugueses - supostamente iguais – têm à disposição.

domingo, 8 de abril de 2012

Era uma vez o progresso.





Ainda que para muitos a destruição da linha de caminho de ferro tenha constituído um erro colossal – o futuro se encarregará, ou não, de o confirmar – a verdade é que a cidade, no imediato, fica a ganhar com a construção deste novo arruamento já, parcialmente, aberto ao trânsito. É um espaço de que até agora os cidadãos não podiam desfrutar, contribuirá para a melhoria da circulação automóvel dentro da cidade e permite um acesso muito mais rápido à zona industrial. Para além de ter requalificado uma área que começava a evidenciar uma preocupante degradação que, mais cedo ou mais tarde, traria consigo problemas de segurança.
Dispensava-se, digo eu que não percebo nada disto, era a ironia de ornamentar a rotunda onde se inicia – ou termina, dependendo do ponto de vista – o dito arruamento, com material alusivo à via-férrea agora destruída. Tratar-se-á de uma homenagem póstuma para nos recordar que ali já existiu uma infra-estrutura que, em determinada altura da história, foi um símbolo do progresso. Mas será, também, mais um motivo que contribuirá para que todos os que por ali vão passar se questionem se a opção foi a melhor.
Por outro lado esta decoração constituirá um enorme desafio para os coleccionadores. E são muitos os que passam por ali. Eventualmente alguns até podem ter residência por perto. Sabe-se que o metal é muito procurado, constitui hoje um bem facilmente transaccionável e aquela coisa ainda deve pesar um quilitos jeitosos. O que a fará render uma quantia simpática. Tudo para, na calada de uma qualquer noite, ser recolhido pela malta que se dedica à angariação de fundos através de esquemas manhosos. Por mais pregado que esteja ao chão desconfio, especialmente a traquitana amarela, não se vai aguentar muito tempo naquele lugar.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Farmeville da crise





Há muitos anos que não tinha o quintal todo cultivado. Não sei ao certo quantos mas, de certeza, deve andar perto de vinte. Tempo em que, feito alarve, tive a mania que era rico. Como, de resto, todos os portugueses. Excepto, claro, aqueles que o são mesmo e não precisam de ter a mania podendo ser tão alarves quanto lhes apetecer.
A produção aqui retratada não vai, obviamente, dar para grandes coisas. Na verdade não passa de um “desdém”. Uma brincadeira, vá. Digamos que não é mais do que uma espécie de entretém. Ainda assim, ao contrário de certas previsões mais pessimistas, tenho fundamentadas esperanças de correr o risco de me engasgar com alguma fava, ervilha ou outro produto com origem no quintal.
A pedido de várias famílias – que é como quem diz, um leitor interessado cujo nome não será aqui revelado – são hoje publicadas várias fotos da horta da crise. Um destes dias, se chegarem a ter “cara” para aparecer, também os morangos, as courgettes ou as nabiças, poderão merecer honras de fotografia. Até lá, leitor interessado cujo nome não será revelado, vai aguardando.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Diz umas piadas giras, o gajo.



O ministro-adjunto e dos assuntos parlamentares – o Relvas, portanto – quis hoje, segundo as suas palavras, deixar um sinal de esperança aos portugueses. Acho que não conseguiu. Mas, em contrapartida, arrancou-me um sorriso. Amarelo. Que, apesar de isto não estar para graças, o homem evidencia uma enorme capacidade para dizer larachas. Segundo a criatura, o governo está a seguir "um princípio de exigência, de rigor e de seriedade nas políticas que temos seguido para que possamos no fim da legislatura poder dizer que estamos a construir um país mais equilibrado, um país mais próspero, e também um país mais feliz”. E, como qualquer bom humorista, disse tudo isto sem se deixar rir. Cá para mim anda a beber às escondidas. Ou então a fumar alguma coisa estragada.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Não pague impostos, ande a pé!


O preço da gasolina não pára de bater sucessivos recordes. Já vai em mais de um euro e setenta e seis cêntimos – nalguns postos terá mesmo superado um euro e oitenta – mas nem isso parece levar os portugueses a encostar o carrinho. Apesar de números oficiais indicarem que estão a ser vendidos menos uns quantos milhões de litros e que a cobrança de impostos sobre os combustíveis continua em queda, não se verifica ainda a diminuição de viaturas em circulação que seria expectável face aos valores que são agora necessários para atestar o depósito.
Esta questão faz-me, de certa forma, lembrar as estatísticas acerca da criminalidade. Sempre que são divulgados os dados relativos à actividade criminosa, todos os indicadores apontam para a baixa do número de crimes. Invariavelmente. Isto apesar de toda a gente ter a percepção do contrário. Sinto o mesmo quando tomo conhecimento de notícias que dão conta da redução do trânsito automóvel em consequência da escalada de preços dos combustíveis. Não noto nada. As cidades continuam repletas de carros e poucos são os que optaram por andar a pé. Desconfio, até, que existirá petróleo a jorrar em muitos quintais. Só pode.
Tenho curiosidade em ver até que ponto vamos resistir e continuar a insistir em não prescindir do automóvel nas deslocações dentro da cidade. Que preço estamos dispostos a pagar pelo conforto, vicio, vaidade, mania ou o que lhe queiram chamar, de percorrer escassas centenas de metros sentados ao volante quando o podíamos fazer a pé? Quando a gasolina sem chumbo chegar aos dois euros voltarei ao tema. Um dias destes, portanto.

Manifesta discriminação


O facto de algumas juntas de freguesia terem decidido alugar autocarros para levar os seus fregueses a manifestarem, em Lisboa, o seu desacordo pelo desaparecimento da sua freguesia parece ter causado algum incomodo em certos opinadores. Daqueles que, nas mais variadas televisões e outros órgãos de comunicação social, têm a mania que fazem opinião. Para essa rapaziada, uma passeata até à capital da república para exprimir indignação não será o destino mais adequado a dar a umas centenas de euros oriundos do erário público. Embora muitos deles não se tenham cansado de, num passado não tão distante quanto isso, exaltar o direito dos portugueses à indignação. Desde que a paguem, acrescentarão agora.
Parece não levantar grande celeuma a necessidade de uma reorganização que envolva o fim de freguesias que hoje, praticamente, já não têm habitantes e que, na prática, apenas existem no papel. É, também, consensual que ao nível autárquico – municípios e freguesias – se esturra dinheiro se forma absolutamente tresloucada. Mas, que diabo, apontar o dedo aos autarcas que entenderam mobilizar os seus eleitores, mesmo gastando dinheiro de todos, para a defesa do órgão da administração pública que está mais próximo do cidadão comum, já me parece demais. Principalmente quando há tanta outra coisa, mesmo a este nível, onde o procedimento é exactamente o mesmo. Assim de repente estou a lembrar-me daqueles eleitores que ciclicamente são transportados para, a título individual e apenas porque lhes apetece, participarem nas mais diversas manifestações. De carácter lúdico, no caso. Estamos, portanto, perante uma clara discriminação do manifestante. O que me deixa indignado. Ludicamente, claro.